domingo, 11 de novembro de 2018

A pesquisa participante: um momento da educação popular

A pesquisa participante: um momento da educação popular
Carlos Rodrigues Brandão; Maristela Correa Borges

De ontem para agora
Pesquisa participante - auto-diagnóstico - pesquisa ação - pesquisa participativa - investigação ação participativa.

1. Pesquisa participante: anos  60 e 80 (alguns lugares da América Latina);
2. originam: diversas unidades de ação social que atuam preferencialmente junto aos grupos ou comunidades populares;
3. originam e re-elaboram diferentes fundamentos teóricos e diversos estilos de construção de modelos de conhecimento social através da pesquisa científica;
4. diferentes alternativas: alinham-se em projetos de envolvimento e mútuo compromisso de ações sociais de vocação popular;
5. em suas diferentes vocações: as pesquisas participantes atribuem aos agentes-populares diferentes posições na gestão.
6. surgem em intervalos entre a contribuição teórica e metodológica vinda da Europa e dos Estados Unidos da América do Norte e a criação ou recriação original de sistemas africanos, asiáticos e latinos-americanos de pensamentos e práticas sociais.
Princípios Operativos: devemos levar em conta a sua relativa atualidade, sobretudo nas experiências que preservam vínculos entre a pesquisa participante e os movimentos sociais.

Alguns fundamentos e alguns princípios convergentes e atuais
- O ponto de origem da pesquisa participativa deve estar situado em uma perspectiva da realidade social, tomada como uma totalidade em sua estrutura e em sua dinâmica.
- Deve-se partir da realidade concreta da vida cotidiana dos próprios participantes individuais e coletivos do processo, em suas diferentes dimensões e interações [...]
- Os processos, as estruturas, as organizações e os diferentes sujeitos sociais devem ser contextualizados em sua dimensão histórica, pois são momentos da vida, vividos no fluxo de uma história [...];
- A relação tradicional de sujeito-objeto entre investigador-educador e os grupos populares deve ser progressivamente convertida em uma relação de tipo sujeito-sujeito [...];
- Deve-se partir sempre da busca de uma unidade entre teoria e prática, e construir e re-construir a teoria a partir de uma sequência de práticas refletidas criticamente.
P.P: deve ser pensada como um momento dinâmico de um processo de ação social comunitária;
se insere no fluxo desta ação e deve ser exercida como algo integrado e, também, dinâmico.
- As questões e os desafios surgidos ao longo de ações sociais definem a necessidade e o estilo de procedimentos de pesquisa participante. (práticas sociais).
- A participação popular comunitária deve ser dar, preferencialmente, através de todo o processo de investigação-educação-ação.
- Ideal: em momentos posteriores exista uma participação culturalmente diferenciada, mas social e politicamente equivalente e igualada, mesmo entre pessoas e grupos de tradições diferentes.
- O compromisso social, político e ideológico do/da investigador(a) é com a comunidade, é com pessoas e grupos humanos populares, com as suas causas sociais.
- Deve-se reconhecer e deve-se aprender a lidar com o caráter político e ideológico. Deve ser praticada como um ato de compromisso de presença e de participação claro e assumido.
- Não existe neutralidade científica em pesquisa algum e, menos ainda, em investigação vinculadas a projetos de ação social.
- Maior parte: pp é um momento de trabalhos de educação popular realizados junto com e a serviço de comunidades, grupos e movimentos sociais, em geral, populares.
- A investigação, a educação e a ação social convertem-se em momentos metodológicos de um único processo dirigidos à transformação social.
- E é a possibilidade de transformação de saberes, de sensibilidades e de motivações populares em nome da transformação da sociedade desigual, excludente e regida por princípios e valores do mercado de bens e de capitais, em nome da humanização da vida social...
[...]uma pesquisa participante devem ser produzidos, lidos e integrados como uma forma alternativa emancipatória de saber popular.
As alternativas de pesquisa participante da tradição brasileira e latino-americana sonharam inovar.
Dos anos 60 e 70 até hoje: as diversas alternativas
"entre o conhecimento produzido através de pesquisas científicas e as ações sociais associadas a elas ou delas derivadas. Elas aspiravam e seguem aspirando a diferentes dimensões de transformações de ações sociais de vocação comunitária e popular, a partir de uma elaboração sistemática de conhecimentos, de saberes e de valores construídos solidariamente, gerados através de pesquisas sociais colocadas a serviço de experiências co-participadas de criação coletiva de saberes, a partir do enlace entre profissionais e/ou militantes agenciados e as pessoas, grupos e comunidades populares. " (p. 56)

Duplo sentido da ideia de totalidade...
1º momento: elas aspiram ser algo historicamente próximo às novas idéias holísticas e transdisciplinares dos “novos paradigmas” (Edgar Morin, Boaventura de Souza Santos e tantos outros) e seus preceitos de totalizações complexas. 
 Hoje esta postura mais centralizadora tem sido bastante revisitada. 
"[...] A contribuição de um sociólogo como Boaventura de Souza Santos é, neste contexto, muito relevante.  Uma das principais características das alternativas participativas é a sua diferenciação. Não reconhecemos hoje em dia uma tendência única ou dominante. Uma única teoria, um único método de trabalho e nem mesmo um único horizonte de ação social. "
"Uma atenção especial deve ser sempre dada à dinâmica das relações e dos processos envolvidos na investigação [...]"

"Na pesquisa participante sempre importa conhecer para formar pessoas populares motivadas a transformar os cenários sociais de suas próprias vidas e destinos, e não apenas para resolverem alguns problemas locais restritos e isolados, ainda que o propósito mais imediato da ação social associada à pesquisa participante seja local e específico. A idéia de que somente se conhece o que se transforma é inúmeras vezes evocada até hoje." (p. 56)

04 propósitos da Pesquisa Participante:
- respondem de maneira direta às finalidades práticas e sociais a que se destinam;
- ser instrumento pedagógico e dialógicos de aprendizado partilhado;
- aspiram participar de processos mais amplos e contínuos de construção progressiva de um saber mais partilhado, mais abrangente, mais sensível...;
- as alternativas participativas (AP) se reconhecem vinculadas à educação popular.
- AP: abrem-se de maneira múltipla e fecunda a outros campos de ação social. O mais enfatizado hoje: é o das pesquisas e ações ambientalistas.

Algumas idéias para atualizar propostas de pesquisa participante no trabalho junto a unidades de ação social popular
A pesquisa serve à criação do saber, e o saber serve à interação entre saberes. 
A interação dialógica entre campos, planos e sistemas do conhecimento serve ao adensamento e ao alargamento da compreensão de pessoas humanas a respeito do que importa:  nós-mesmos; os círculos de vida social e de cultura que nos enlaçam de maneira inevitável; [...]
Todo o conhecimento competente não vocacionado ao diálogo entre saberes e entre diferentes criadores de saberes [...] não tem mais valor do que o de sua própria solidão. 
Devem lutar por preservar critério de    rigor, de objetividade e de honesta competência em seu trabalho, [...]
"Qualquer teoria científica é uma interpretação entre outras e vale pelo seu teor de diálogo, não pelo seu acúmulo de certezas. Todo o modelo de ciência fechado em si mesmo é uma experiência de pensamento fundamentalista, como o de qualquer religião ou qualquer outro sistema de sentido fanático. "
A finalidade do conhecimento é também a de produzir respostas às necessidades humanas. (p. 58)
[...] Mas isto não significa que a ciência deva ser originalmente utilitária. (p. 58)
"Todo pensamento que imagina saber algo e que enuncia e diz o que alguém pensa, de algum modo, a outras pessoas, a outros pensadores-interlocutores, fala sempre desde e para um lugar social. [...], a ciência e a educação que sonhamos praticar, 
[...], devem falar de comunidades humanas concretas e cotidianas.

Paulo Freire:
[...], práxis: um pensar dialógico e crítico a respeito de uma realidade que uma ação reflexiva - ela própria o pensamento tornado atividade coletiva e subversivamente conseqüente - trata de transformar como e através de um processo inacabado e sempre actancial e reflexivamente aperfeiçoável ao longo da história humana. E a própria história deve tender a ser práxis, pois cria e transforma.

[...]entre conhecimento científico (o dos outros sobre nós) e o conhecimento vulgar (o nosso sobre os outros), deverá desaguar em  realizações - “a prática será o fazer e o dizer da filosofia da prática”7. Para além da realização dos planos intelectuais de um sujeito de  conhecimento[...] e para além da utilização dos benefícios estendíveis a quem foi antes um objeto de conhecimento através de uma pesquisa, todo o trabalho conseqüente de investigação deve objetivar ser um passo a mais no caminho da realização humana. (p. 59)

Todo o conhecimento de qualquer ciência vocacionada ao alargamento do diálogo e à criação de estruturas sociais e de processos interativos, econômicos, políticos, científicos, tecnológicos ou o que seja, sempre mais humanizadores, integra antes, de algum modo, sujeitos e objetos em um projeto de mudança em direção ao bem, ao belo e ao verdadeiro. (p. 60)

Ideia de Sartre...
O essencial não é o que foi feito do homem. O essencial é o que ele faz e não cessa de seguir fazendo com o que fizeram dele. [...]
O que o homem faz é o que ele cria. O que ele cria são os gestos de quando o coração e o conhecimento geram os saberes de sua condição de pessoa em busca da construção de sua liberdade. [...]
[...] Toda a pesquisa, em qualquer circunstância, com esta vocação e qualquer que seja o seu domínio de pensamento, não é mais do que um pequeno, efêmero e indispensável momento em tudo isto. (p. 60)

[...], lembrar que o conhecimento que produzimos deságua, em primeiro lugar, numa comunidade cultural chamada educação e, a seguir, nas suas pequenas e insubstituíveis comunidades sociais chamadas escolas, salas de aulas, comunidades aprendentes. (p. 61)

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