segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A técnica da escrita científica

A técnica da escrita científica

Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbef/v37n2/0102-4744-rbef-37-02-2201.pdf. Acesso em 03 dez. 2018.

Osvaldo N. Oliveira Jr.
Instituto de Física de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, SP, Brasil

Cientistas precisam se comunicar com a sociedade
artigos científicos = mais difíceis de produzir
- precisão da informação X tornar o texto acessível a um público não especializado.

A ESCRITA de um artigo científico deve obedecer critérios
- método científico, 
- publicação justificável = se houver contribuições relevantes. 

ARTIGO:
[...] Ou seja, o artigo deve ser resultado de um trabalho de pesquisa sistemático, criteriosamente planejado para resolver problemas científico-tecnológicos que tragam avanços significativos ao campo de pesquisa. O conhecimento da literatura e o domínio da metodologia apropriada s˜ao essenciais para atingir tal objetivo. (p. 01)

Um artigo científico deve conter:
- novas ideias, 
- conceitos, 
- interpretações,
- modelos teóricos,
 e não apenas um relato de resultados. 

O estudo e a aprendizagem da escrita científica são hoje baseados numa área denominada linguística de corpus, em que fenômenos linguísticos são estudados a partir da análise de grande volume de textos. 
[...] Um corpus é uma coleção de textos – falados ou escritos – organizados ou indexados para um propósito específico. São exemplos os corpus com textos traduzidos de uma língua para outra usados no desenvolvimento de tradutores automáticos. 
O texto científico é altamente estereotipado, e um artigo tem uma estrutura praticamente fixa. Deve conter as seguintes seções: 
1) Título,
2) Resumo,
3) Introdução, 
4) Materiais e Métodos, 
5) Resultados, 
6) Discussão, 
7) Conclusão, 
8) Agradecimentos e 
9) Referências,
FLUXO de texto num ARTIGO CIENTÍFICO = a um movimento bem definido. 

INTRODUÇÃO: começa do tema mais geral, e afunila para mencionar a contribuiçãao do artigo, num movimento do geral para o específico.
CONCLUSÃO: contrário, movimento oposto, iniciando-se com o retomar dos principais resultados do artigo e terminar com as implicações das contribuições para uma área mais geral ou mesmo para a sociedade, dependendo do tipo de trabalho.
RESUMO = componente mais importante (em muitas bases de dados cientíıficas, apenas o título e resumos são fornecidos).
Resumo DEVE trazer:
- a s´ıntese das ideias e concepções inovadoras do trabalho. 
2 ESTILOS principais de resumo: os descritivos e os informativos. 

para RESULTADOS ORIGINAIS = obrigatoriamente INFORMATIVO

CONTER: as principais contribuições do trabalho.
Estrutura = relativamente fixa, tendo como componentes: Contextualização, Lacuna, Propósito, Metodologia, Resultados e Discussão, e Conclusão e Perspectivas. 
Qdo a revista limita o tamanho do Resumo =  eliminados os 2 (contextualização e lacuna), 
Inicia-se com o Propósito.
CONTEXTUALIZAÇÃO = tópico geral de que trata o artigo
LACUNA: limitações ou restrições da área, que será preenchida com o trabalho 
PROPÓSITO: vem logo a seguir (obrigatório),  informa os objetivos principais; 
METODOLOGIA: os meios para atingir esses objetivos (Podendo incluir procedimentos experimentais, análises teóricas ou estatísticas.
RESULTADOS: principais  contribuições do trabalho devem estar contidas no componente DISCUSSÕES: dados quantitativos se for o caso, e com a interpretação dos resultados mais relevantes. 
[...] Ressalte-se que o resumo, assim como o artigo científico, deve ter o material organizado de forma lógica, privilegiando a transforma¸c˜ao dos resultados em ideias e conceitos. A ordem lógica pode n˜ao coincidir com a cronológica em que a pesquisa foi realizada. [...]
CONCLUSÕES e PERSPECTIVAS: encerra o resumo, colocando-se as principais contribuições do artigo no contexto mais abrangente do tópico de pesquisa e apontando-se suas implicações.

RESUMOS DESCRITIVOS

- sumarizar o conteúdo de livros, capítulos de livros e artigos de revisão da literatura, pois nestes casos as contribuições mais relevantes podem não ser originais ou mesmo estar contidas em trabalhos de outros autores, discutidos no texto. O resumo tem o papel de descrever como o tópico em questão ser´a abordado.
Para os resumos descritivos, a estrutura é menos fixa do que nos informativos, mas o leitor precisa ser informado de que se trata de revisão da literatura ou dissertação sobre determinado assunto.

TEXTO DO ARTIGO
- buscar concisão e precisão na informação
PRECISÃO: [...] essencial, pois muitos termos têm significados específicos em física (ou em ciência), que podem diferir de seu uso corriqueiro. Por exemplo, a palavra “interferência” ´e muito empregada em linguagem coloquial para uma diversidade de situações. Mas em física tem significado específico, no fenômeno de interferência de ondas. A busca por concisão, por outro lado, deve ser incansável, especialmente porque autores tendem a exagerar no uso de clichês e em palavras desnecessárias.
Recomendações PARA GANHAR concisão:
-  reduzir ao mínimo o número de adjetivos e advérbios, (evitar os que não trazem precisão)
[...] Em física, palavras como grande, pequeno, amplamente, extensamente, extremamente n˜ao contribuem para transmitir informação precisa. O mesmo se aplica a expressões como sendo assim, quase sempre dispensável.

"Como se pode depreender, os conceitos relevantes da escrita científica são independentes da língua em que o artigo é escrito. [...] A proposito, a influencia da língua materna é uma das maiores limitações para a escrita de qualidade numa língua estrangeira. Não é incomum que um aprendiz, conhecedor do vocabulário e gramática de uma segunda língua, escreva sentenças gramaticalmente corretas que soam estranhas para um nativo da língua."

POSSÍVEL SOLUÇÃO para esta dificuldade em escrever textos com o padrão próximo daquele produzido por escritores nativos e experientes também pode ser encontrada na linguística de corpus. -- estratégia, delineada detalhadamente num livro recente [2]
- que consiste em aprender por exemplos a partir de um corpus montado pelo próprio aprendiz.
- Inclui treinamento intensivo com leitura de textos científicos em inglês, publicados preferencialmente por nativos da língua, 
- e anotação da função de expressões e sentenças
"[...] Para montar o corpus, o pesquisador deve ler cuidadosamente grande quantidade de textos, e anotar como expressões transmitem conceitos e ideias. De fato, ´e correta a percepção de que para escrever bem ´e preciso ler muito. Porém, não se trata de leitura qualquer; deve ser sistemática e meticulosa, concentrando-se mais na forma do que no conteúdo do texto."

ESTUDO SISTEMÁTICO:
- facilitado se os textos compilados para o corpus forem classificados de acordo com as seções e componentes de um artigo, 
- se forem anotadas as funções retóricas das expressões.
 E útil para qualquer escritor em língua estrangeira saber executar funções retóricas como “descrever”, “contrastar”, “definir”, “concluir”, etc, para que possa se expressar com a mesma proficiência que o faz na língua materna. Mencione-se que esse trabalho de identifica¸c˜ao de subcomponentes e funções já constitui ótimo exercício de aprendizado em escrita científica, independentemente da língua."

"A estratégia inspirada em linguística de corpus só é bem sucedida se o aprendiz já tiver um conhecimento mínimo de inglês, pois caso contrário não será capaz de identificar as expressões e funções relevantes. Além disso, a tarefa de aprender escrita científica em inglês, a partir de um corpus que precisa ser construído, n˜ao ´e simples e nem rápida. Exige dedicação e tempo, pois não ha formulas magicas para aprender escrita científica com pouco esforço como também não as ha para aprender física." 

Revista Brasileira de Ensino de F´ısica, v. 37, n. 2, 2201 (2015) 
www.sbfisica.org.br 
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S1806-11173720001 

Carta ao Editor 

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